Diversidade Cultural. Cidadania. Cultura Popular. Semiótica e Interpretação.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Design, desenvolvimento Local e Identidade

Design, Desenvolvimento Local e Identidade

Por meio do design são criados produtos que empregam elementos da história local, das características do lugar e das pessoas envolvidas.




O design está nos produtos, nas embalagens, no material promocional, nos padrões estéticos e ambientais, na identidade visual do produto e da empresa. Pode determinar a escolha de materiais e modos de produção e, dessa forma, contribuir para a redução de custos e maior adequação a exigências ambientais.



Designer e artesã se dão as mãos para a produção de um trabalho conjunto que leva as duas marcas: a marca do especialista em criação e sofisticação e a marca da tradição em produtos feitos a mão da artesã.


Extraído de:


"De Bonecas, Flores e Bordados: investigações antropológicas no campo do artesanato em Brasília". Tese de Doutorado. Brasília, UNB, 2008.

Parcerias

Parcerias Internacionais

A noção de "parceria" permeia o campo social. Vai desde acordos para a cooperação entre países, passando por intercâmbios acadêmicos, inclui até mesmo as antigas formas de assistência conhecidas como "ajuda", aplicadas a regiões carentes. O termo hoje possui significados múltiplos, que variam de acordo com o contexto em que é empregado.





Antropologia Brasil e India - parcerias no eixo Sul-Sul

Incentivados por acordos governamentais, pesquisadores acadêmicos do chamado "eixo Sul-Sul" tem realizado intenso intercâmbio com o objetivo de promover uma aproximação entre os países considerados fora do eixo hegemônico, que seria o Norte. Entre os países do eixo Sul destacam-se o Brasil, a India e a Africa do Sul.
Essa tentativa de aproximação de interesses de pesquisa e debate sobre os problemas sociais repousa sobre o pressuposto de que o motivo que os une, serem excluídos do eixo norte, caracterizado por europa e estados unidos, os tornaria mais próximos. Além disso, a condição de ex-colonias os colocariam diante de questões socio-econômicas semelhantes.
O tema suscita grandes controvérsias, uma vez que as diferenças entre as realizades sociais, políticas, econômicas de tais países também não são poucas ou diminutas. Uma tentativa de reflexão sobre essas questões foi lançada no artigo abaixo, escrito logo após a realização de uma pesquisa de campo sobre a Políticas de Preservação do Patrimônio na India. Na ocasião foi possível perceber grande diferença de posturas no encaminhamento das questão pelos governos brasileiro e indiano, o que nos coloca diante de muitas perguntas mais.

artigo sobre o Eixo Sul-Sul


As parcerias não se restringem ao âmbito governamental. O termo faz parte do discurso amplamente empregado na sociedade civil organizada ou que esta em busca de se organizar.
Moeda de troca, a "parceria" esta presente na lei que orienta a criação das Organizações da Sociedade Civil, embora sem muito detalhamento, deixando margem para a criatividade e a iniciativa. O que é mais relevante em tudo isso: a "parceria" está na boca do povo!
O termo faz parte do vocabulário cotidiano dos beneficiários de projetos sociais nas comunidades. Embora ninguém saiba muito bem como definir o significado de uma "parceria", todos sabem exatamente o que ela significa, e seus usos.


Parcerias Institucionais
Contando com a parceria do Sebrae, as artesãs de Brasília realizaram o projeto "Histórias de Vida", em que cada uma delas bordava uma narrativa da sua história, desde o local onde nasceu, até o momento presente, em Brasília, onde se reúnem em grupos para fazer bordados.


Antonieta Contini mostra como ficou o resultado desse trabalho em uma das colchas bordadas pelas artesãs. Na foto é possível observar o trajeto das estradas que corresponde ao período de migração dentro do Brasil, e a diferente vegetação que caracteriza cada região brasileira.
Há referências também a uma oposição entre a vida no campo e a vida na cidade, que as artesãs ajudaram de certa forma a construir, na medida em que passaram a viver em Brasília e ali constroem a sua história.
Tese sobre o Artesanato em Brasília

Artesanato de Exportação em Brasília

Produção artesanal de Brasília é conhecida no Brasil inteiro e exportada.






Buscando a inspiração no folclore brasileiro, Kátia desenvolveu os produtos do projeto Apoena visando a sofisticação do artesanato. De olho em um público mais refinado, e com maior poder aquisitivo, Kátia aposta na produção artesanal como um diferencial para agregar valor ao produto. “São peças feitas à mão, pelas artesãs, isso não pode custar barato, eu preciso valorizar o trabalho delas”.



A organização Apoena já participava dos eventos de moda do Rio de Janeiro e também de São Paulo, Fashion Rio e São Paulo Fashion Week. Em seguida foram convidadas a participar também de eventos internacionais, integrando feiras de moda em Portugal e na França, para onde começaram a exportar.

A proposta da organização é produzir moda vinculada à ação social. De acordo com Kátia, Apoena significa “aquele que enxerga longe” na língua tupi.

(Reportagem do Correio Brasiliense, Brasília, 2008)


O objetivo do projeto Apoena seria a inclusão de mulheres que em sua maioria trabalham em casa, perto dos seus filhos, garantindo-lhes renda e uma melhor qualidade de vida. Tal projeto, denominado Apoena, é criação da designer Kátia Ferreira, idealizadora do Instituto Proeza, uma organização não-governamental cujo foco são famílias de baixa renda, ou em situação de desemprego. Kátia criou um projeto que pudesse gerar renda e ao mesmo tempo mantivesse as mães perto de seus filhos.

Extraído de:

"De Bonecas, Flores e Bordados: investigações antropológicas no campo do artesanato em Brasília". Tese de Doutorado. Brasília, UNB, 2008.

Grupo de Produção Flor do Cerrado de Samambaia

Grupo de Produção Artesanal Flor do Cerrado - semenado arte na comunidade de Samambaia - DF




Roze Mendes, figura central do grupo de produção Flor do Cerrado, tem como um de seus objetivos o desenvolvimento local da região de Samambaia, onde reside. Este grupo, que teve início no espaço da creche comunitária, cedido pelo padre, conta atualmente com a participação de quatorze mulheres, e acabou transformando-se numa Micro Empresa, como forma de garantir sua participação, sempre crescente, no mercado. A trajetória de luta das mulheres, narrada do ponto de vista de Roze, merece ser conhecida.




Assim ela começou a ensinar o que sabia, a manufatura de flores artesanais e outros trabalhos manuais. As mulheres foram aparecendo e juntando-se ao pequeno grupo inicial, e chamando sempre outras a participarem, convidando parentes e amigas para fazerem parte daqueles encontros de aprendizagem. Após as instruções iniciais, Roze começa a elaborar o seu “projeto”, pois já havia sido iniciada na linguagem e nos modelos de funcionamento daquele campo.

“Aí eu fiz um projeto, “Flor do Cerrado semeando Arte na Comunidade”, porque eu dava muito curso, e eu sozinha já não dava conta...chegou num ponto, chegava uma e eu falava assim: o que você sabe fazer? Bordar, então você vai ensinar ela a bordar, aí ela vai te ensinar a fazer flores, aí todo mundo virou instrutor, que era muita gente, não dava.”




O grande desafio para Roze era mostrar para aquelas mulheres que elas poderiam fazer algo de verdade, desenvolver um trabalho sério baseado em atividade artesanal, que essa possibilidade estava em suas mãos. Ela percebeu que a maioria delas entrava e saída do grupo de trabalho sem ser tocada pela visão das possibilidades que estava diante dos seus olhos. Percebeu também que somente algumas das mulheres participantes encaravam seriamente o artesanato como atividade economicamente viável e tratavam o assunto com a seriedade que ele merecia. Para ela, apenas as “mulheres que tinham sonho” de aprender coisas novas e crescer, sonho de mudar a sua vida, somente essas poderiam se engajar seriamente no projeto e levar adiante o desafio. Roze acredita na força dos sonhos, que impulsionam a mulher para a luta, e foi buscando reunir “as mulheres que tinham sonho” que ela formou o grupo Flor do Cerrado.

Extraído de:

"De Bonecas, Flores e Bordados: investigações antropológicas no campo do artesanato em Brasília". Tese de Doutorado. Brasília, UNB, 2008.

As Bordadeiras de Taguatinga Flor do Ipê

As Bordadeiras de Taguatinga Flor do Ipê




Baseado nessa imagem de migrações, os moradores da cidade observam que a capital reúne pessoas de todo o Estado nacional, de forma que todos estão aqui representados de alguma forma. Como cada um traz consigo os seus hábitos e suas práticas, a capital reúne os fazeres de todo o país, operando como o local da síntese dos fazeres tradicionais.

Essa idéia de síntese se constrói na própria experiência de formação dos grupos de trabalho. Um vez que as mulheres começam a se reunir e a entrar em contato com outras mulheres, que por sua vez também trazem suas práticas e fazeres artesanais, descobrem-se mutuamente as semelhanças e diferenças. Observam então que mulheres provenientes de várias regiões do Brasil possuem habilidades para fazer o bordado, por exemplo, mas os tipos de pontos e o modo de fazer em si pode variar um pouco de lugar para lugar.

Reunidas em Brasília, no Centro do Brasil, elas trocam experiências e pontos de bordado, e acabam por concluir que no centro do Brasil se encontram representadas as variações regionais provenientes de várias localidades, resultando numa síntese de saberes e de fazeres brasileiros.






Extraído de:

"De Bonecas, Flores e Bordados: investigações antropológicas no campo do artesanato em Brasília". Tese de Doutorado. Brasília, UNB, 2008.

Brasília

Brasília


“Deste planalto central,
desta solidão que em breve se transformará em cérebro
das altas decisões nacionais,
lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país
e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável
e uma confiança sem limites no seu grande destino".

(Juscelino Kubitschek, 02 de outubro de 1956,
conforme se encontra num monumento na Praça dos Três Poderes)





Numa tarde de quarta-feira, eu sigo de carro pela Via Estrutural, passando o posto de gasolina eu dobro à direita e subo...seguindo a indicação que me foi dada. Passando o posto da Polícia Rodoviária eu entro à direita novamente e já cheguei na Samambaia. Depois pra voltar é só fazer a mesma coisa, sendo que tudo ao contrário...lá pelas tantas me deparo com uma rotatória, com três entradas possíveis. E agora? Para que lado fica Brasília? Eu estaciono o carro numa madeireira para perguntar aos homens que estavam ali pela frente: “pra que lado fica Brasília?” Eles me olham intrigados: “Aqui é Brasília.”


O mais curioso para mim foi que, embora estivéssemos nos referindo a coisas diferentes, nenhum de nós estava errado, pois tanto o Plano Piloto quanto à região do seu entorno acabam sendo chamados de Brasília.
Para tentar explicar resumidamente as diferentes acepções do termo encontradas, Brasília pode ser definida como a Região Administrativa número I, que corresponderia ao Plano Piloto, ou seja, Asa Sul, Asa Norte e região Central. Pode também ser entendida como a soma da área urbana das 28 regiões administrativas. Considerando que essas duas definições, além de uma série de outras, são amplamente empregadas para designar a cidade, podemos dizer que o Plano Piloto seria a definição mais estrita do termo, ao mesmo tempo em que o sentido amplo do termo “Brasília” significaria incluir todas as 28 regiões administrativas.
É esse sentido mais amplo do termo que adoto quando me refiro às “artesãs de Brasília”, pois é assim que aparece em campo. Muitos dos relatos das mulheres sobre quando vieram morar em Brasília, por exemplo, empregam esse sentido amplo do termo. Quando uma informante me conta “Sempre morei em Brasília. Nasci na Ceilândia e depois que casei mudei pra cá, pra Samambaia”. Quando aparecem na televisão e nas revistas, igualmente, as artesãs de Brasília se referem ao lugar onde moram como Brasília, e as reportagens a seu respeito tratam do artesanato produzido na capital, em Brasília.
Diante disso, não há muito mais que argumentar.
Para ler mais sobre Brasília e suas regiões administrativas, e sobre a confusão entre os termos que as designam, ver a Tese
"De Bonecas, Flores e Bordados: investigações antropológicas no campo do artesanato em Brasília", Brasília, UNB, 2008, pág. 24.