Diversidade Cultural. Cidadania. Cultura Popular. Semiótica e Interpretação.
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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Bordado e narrativa

O bordado de inspiração indígena de Durvalina Moura é uma tradução da sua trajetória de vida. Ela procura, por meio da sua "arte de agulha e linha", reproduzir o percurso migratório que andou até sua chegada em Brasília. A artesã faz parte do grupo que produz para a ONG APOENA, da designer Katia Ferreira.



Os elementos que ela selecionou para bordar procuram mostrar detalhes significativos que fazem parte do seu modo de ver o mundo, e que compõem o seu universo cultural. A imagem do índio genérico no topo do bordado é particularmente interessante, revelando uma maneira própria de representar pertencimento identitário que remete a figura indígena comumente encontrada em livros infantis. Ou seja, uma imagem que é exterior ao universo indígena em si mesmo. Um olhar de fora sobre o indígena, estereotipado e até mesmo romântico. Encontra-se no mesmo campo semântico a OCA indígena e o contato com a natureza, representado pelas plantas e animais.

O bordado narrativa tornou-se uma tendência nesse campo, centrando-se nas histórias de vida das artesãs, sendo também uma forma de elaborar as vivências que marcam cada uma delas.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Orissa revela grande riqueza cultural da India

Orissa é uma região da India que possui inúmeras belezas naturais. Além disso, o estado é conhecido pelos tradicionais trabalhos em artesanato feito á mão. As peças produzidas naquele local tem características próprias e um modo de fazer que não é encontrado em outros locais da India.







  Em Orissa também pode ser encontrado um grande número de monumentos religiosos tombados como Patrimônio Histórico Cultural. São templos Hindus, Janistas e Budistas, em sua maioria.



Como sugestão de leitura antropológica sobre a India recomendo:

CHATERJEE, Partha. "Our Modernity". SEPHIS-CODESRIA publication #1, 1997.

  "Our Modernity"

DAS, Veena. Critical Events. An Anthropological Perspective on Contemporary India. Delhi: Oxford, 1995.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Museu da Arte Popular de NY

Em visita ao Museu da Arte Popular de Nova Iorque me deparei com uma colcha de retalhos num modelo muito parecido com aquelas que são feitas no Brasil, pelas artesãs das comunidades com quem trabalhei em Brasília.

De modo semelhante ao trabalho das artesãs brasileiras, a colcha que estava exposta no museu também continha uma narrativa sobre a vida do artesão que a confeccionou. Composta em patchwork, a colcha fala do universo do artesão em cada detalhe, como por exemplo nas plantas cultivadas, espécies locais, os animais e o modo de trabalhar a terra.  Não havia questionamento sobre a condição de arte do objeto.


Observe na foto:


e compare com a brasileira:



O bordado de Brasília aborda temas semelhantes, mas é feito num estilo próprio, sem as molduras do patchwork ou o formato Quilt das colchas de herança cultural inglesa. As cenas elaboradas para a narrativa são separadas pelos caminhos da própria estrada, que é a estrada da vida.

A imagem da estrada é sempre recorrente nos bordados de Brasília, devido ao próprio fato de se tratar de uma cidade que abriga migrantes, oriundos de diversas regiões do Brasil. O elemento de desterritorializacnao e mudança os une. O trabalho manual contribui no processo de reinvenção de si mesmo na adaptação a nova realidade e ao novo contexto social. A narrativa é a própria elaboração subjetiva de uma história pessoal, que se repete, com diferente e variada riqueza de detalhes, nas Marias, Terezas, Irenes, Ivonetes, Jovencas, e tantas mulheres de coragem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Bonequeiras de Moscou

 Praça Vermelha, em Moscou.

 Ela não fala inglês e meu russo é capenga. Mesmo assim ela me contava a sua história.  Seu trabalho é totalmente artesanal, mostra como faz tudo a mão, com delicadas e firmes pinceladas.



 A artesã pinta os ovos coloridos e delicadamente desenhados ali mesmo, no espaço da feira, demonstrando o seu fazer. Junto dos objetos que estão a venda, ela expõe uma página de jornal, "GAZETA", onde se pode ver a publicação de uma reportagem sobre a sua arte.
 Não é mesmo impressionante o impacto da Globalização sobre a revitalização, revalorização e ressignificação de fazeres tradicionais???







As "mamushkas" ou "babushkas" são todas pintadas a mão. Variam as cores, os modelos, o tipo de roupinha e mesmo a expressão dos rostinhos. Depois de conversar por um tempo tentando entender, acabei descobrindo que algumas são mais autênticas do que outras.
Sim, todas são pintadas a mão por artesãos russos. Entretanto, algumas recebem um "selo de autenticidade" emitido pelo governo, que permite que sejam vendidas pelo triplo do preço.
O intuito do selo seria garantir que as bonequinhas haviam sido fabricadas na Russia mesmo, e não tinham sido feitas na China, donde conclui-se que já existem também "babushkas" russas feitas na China! Pasmem!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Grupo de Produção Flor do Cerrado de Samambaia

Grupo de Produção Artesanal Flor do Cerrado - semenado arte na comunidade de Samambaia - DF




Roze Mendes, figura central do grupo de produção Flor do Cerrado, tem como um de seus objetivos o desenvolvimento local da região de Samambaia, onde reside. Este grupo, que teve início no espaço da creche comunitária, cedido pelo padre, conta atualmente com a participação de quatorze mulheres, e acabou transformando-se numa Micro Empresa, como forma de garantir sua participação, sempre crescente, no mercado. A trajetória de luta das mulheres, narrada do ponto de vista de Roze, merece ser conhecida.




Assim ela começou a ensinar o que sabia, a manufatura de flores artesanais e outros trabalhos manuais. As mulheres foram aparecendo e juntando-se ao pequeno grupo inicial, e chamando sempre outras a participarem, convidando parentes e amigas para fazerem parte daqueles encontros de aprendizagem. Após as instruções iniciais, Roze começa a elaborar o seu “projeto”, pois já havia sido iniciada na linguagem e nos modelos de funcionamento daquele campo.

“Aí eu fiz um projeto, “Flor do Cerrado semeando Arte na Comunidade”, porque eu dava muito curso, e eu sozinha já não dava conta...chegou num ponto, chegava uma e eu falava assim: o que você sabe fazer? Bordar, então você vai ensinar ela a bordar, aí ela vai te ensinar a fazer flores, aí todo mundo virou instrutor, que era muita gente, não dava.”




O grande desafio para Roze era mostrar para aquelas mulheres que elas poderiam fazer algo de verdade, desenvolver um trabalho sério baseado em atividade artesanal, que essa possibilidade estava em suas mãos. Ela percebeu que a maioria delas entrava e saída do grupo de trabalho sem ser tocada pela visão das possibilidades que estava diante dos seus olhos. Percebeu também que somente algumas das mulheres participantes encaravam seriamente o artesanato como atividade economicamente viável e tratavam o assunto com a seriedade que ele merecia. Para ela, apenas as “mulheres que tinham sonho” de aprender coisas novas e crescer, sonho de mudar a sua vida, somente essas poderiam se engajar seriamente no projeto e levar adiante o desafio. Roze acredita na força dos sonhos, que impulsionam a mulher para a luta, e foi buscando reunir “as mulheres que tinham sonho” que ela formou o grupo Flor do Cerrado.

Extraído de:

"De Bonecas, Flores e Bordados: investigações antropológicas no campo do artesanato em Brasília". Tese de Doutorado. Brasília, UNB, 2008.

As Bordadeiras de Taguatinga Flor do Ipê

As Bordadeiras de Taguatinga Flor do Ipê




Baseado nessa imagem de migrações, os moradores da cidade observam que a capital reúne pessoas de todo o Estado nacional, de forma que todos estão aqui representados de alguma forma. Como cada um traz consigo os seus hábitos e suas práticas, a capital reúne os fazeres de todo o país, operando como o local da síntese dos fazeres tradicionais.

Essa idéia de síntese se constrói na própria experiência de formação dos grupos de trabalho. Um vez que as mulheres começam a se reunir e a entrar em contato com outras mulheres, que por sua vez também trazem suas práticas e fazeres artesanais, descobrem-se mutuamente as semelhanças e diferenças. Observam então que mulheres provenientes de várias regiões do Brasil possuem habilidades para fazer o bordado, por exemplo, mas os tipos de pontos e o modo de fazer em si pode variar um pouco de lugar para lugar.

Reunidas em Brasília, no Centro do Brasil, elas trocam experiências e pontos de bordado, e acabam por concluir que no centro do Brasil se encontram representadas as variações regionais provenientes de várias localidades, resultando numa síntese de saberes e de fazeres brasileiros.






Extraído de:

"De Bonecas, Flores e Bordados: investigações antropológicas no campo do artesanato em Brasília". Tese de Doutorado. Brasília, UNB, 2008.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Ruth Cardoso deixa sua marca no campo do Artesanato Brasileiro




Faleceu na noite de ontem a Antropóloga e ex-primeira-dama Ruth Cardoso.

Acadêmica conceituada, professora da Universidade de São Paulo, teve inclusive atuação internacional, lecionando na Europa e nos Estados Unidos. Nascida em 1930, em 19 de setembro, tinha 77 anos.

Uma das marcas de sua trajetória foi a atuação política, na preocupacão social com as questões da juventude e da pobreza. Sua ação no campo social foi no sentido de operacionalizar políticas públicas visando a transformação nos meios de vida da população mais necessitada. Possuia uma visão não-assistencialista dos programas sociais, conforme ficou evidenciado durante o período em que ela atuou como primeira-dama.

Ela acreditava que era preciso capacitar os indivíduos para que se tornassem agentes com competência de promover seu próprio desenvolvimento, tornando-os capazes de lutar pelos seu próprio sustento e pela melhoria das condições de vida.

O Programa do Artesanato Solidário, com o qual tive algum contato durante a realizacão da pesquisa sobre o Artesanato de Brasília, foi pensado como uma resposta ao problema da pobreza e da seca, recorrente e sem soluções definitivas na região do nordeste brasileiro.

Começou como um projeto de capacitação e geração de renda.
A situação de pobreza que convive com um rico patrimônio cultural ligado a fazeres artesanais tradicionais levou a elaboração de uma política de valorização dessa produção artesanal de caráter singular.

Assumido o desafio de promover o desenvolvimento de condições de produção artesanal que respondessem a um ritmo viável para a sua integração em redes produtivas e comerciais em escala nacional, surgia o Comunidade Solidária.
Um dos propósitos principais, ao lado da geração de renda, era a preservação dos modos de vida das comunidades locais e a utilização sustentável dos recursos e da matéria-prima disponíveis.

Enfim, Ruth Cardoso foi responsável por lançar as bases do Programa do Artesanato tal como ele é conhecido hoje, pois embora a orientação política atual, do Governo Lula, não seja a mesma de FHC, antes uma oposição aquela, o programa de Ruth Cardoso estabeleceu as diretrizes que foram incorporadas e continuam atuantes no campo do artesanato brasileiro.

por Aline Sapiezinskas.

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Repercussões na Mídia

Intelectuais e amigos próximos da ex-primeira dama Ruth Cardoso lamentaram nesta quarta-feira (25) a morte da antropóloga, que faleceu nesta terça-feira (24) em casa, no bairro Higienópolis, em São Paulo (SP). Para eles, dona Ruth - como era carinhosamente chamada - era um exemplo de mulher que soube articular a vida acadêmica com a vida pública.

O antropólogo Luís Roberto Cardoso de Oliveira, 54, presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e sobrinho de Ruth Cardoso, disse que o Brasil perdeu uma grande intelectual.

“Para nós [da ABA] é uma enorme perda. A Ruth teve um papel muito importante na antropologia brasileira - primeiro como professora da Universidade de São Paulo e depois como mulher pública. Ela sempre articulou com perfeição a sua atividade acadêmica com o engajamento político não-partidário. A trajetória dela tem essa marca muito forte, com posicionamentos políticos firmes e moderados ao mesmo tempo”, disse.

O cientista político Bolívar Lamounier, 65, amigo pessoal da ex-primeira dama, também elogiou seu posicionamento como professora e mulher pública. Ele contou que conheceu Ruth Cardoso na década de 70, quando começou a trabalhar com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.


Lula suspende agenda à tarde para ir ao velório de Ruth Cardoso em São Paulo

“Particularmente, acho que ela desempenhou brilhantemente todos os papéis que ocupou - como professora, como pessoa pública ou como pessoa privada. Ela nunca precisou fazer nada de aparências, era uma pessoa exemplar, com uma autenticidade muito grande. Ruth nunca ficou deslumbrada e nunca tentou ser quem não era por causa de seu papel público. Ela soube fundir os papéis muito bem, sem nenhuma dificuldade. Era um modelo de pessoa, de uma grandeza extraordinária”, declarou.

Amiga pessoal e também professora da USP, a antropóloga Eunice Durham, 76, ficou emocionada ao falar da morte de Ruth Cardoso.

“A Ruth é unanimidade nacional. Você não vai encontrar ninguém que tenha nada para falar contra ela, nem mesmo os adversários políticos. Ela era uma pessoa admirável e fará muita falta. Sempre tratou a vida pública com lisura e respeito, pois tinha uma visão política extremamente lúcida”, disse a professora, que conheceu a ex-primeira dama em 1956, quando passaram a dividir a cadeira de antropologia da USP.

“Dividi com ela mais de 50 anos de amizade e colaboração intelectual. Em todo esse tempo, ela nunca me desapontou, ela é um verdadeiro exemplo.”

Para o antropólogo Roberto Augusto DaMatta, 72, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Ruth Cardoso revolucionou o papel de primeira-dama no país.

“Ela modernizou a ação social, mudou a forma como a ação social era vista pela sociedade. Ela fez uma revolução sem a gente perceber”, disse DaMatta, que conheceu a ex-primeira dama na década de 50, quando decidiu estudar antropologia.

“A dona Ruth teve um papel muito importante na minha formação, ela foi uma referência para o meu panorama. Nós tivemos uma convivência intensa durante muito tempo e, mesmo depois de ela se tornar uma pessoa pública, ela nunca deixou de me atender. Sempre manteve a mesma delicadeza e educação. Para mim, fica a perda de uma amiga que sempre me incentivou. O Brasil perdeu uma pessoa muito boa.”

Gilberto Velho, 63, professor titular de antropologia do Museu Nacional do Rio de Janeiro também lamentou a morte da ex-primeira dama, orientadora da tese de doutorado de Velho, em 1975.

“Eu a conheço há mais de 30 anos. Dona Ruth desenvolveu a carreira com muita competência, sempre preocupada com a política social. Ela manteve uma postura ética e uma civilidade exemplares. Era uma pessoa impecável. Portanto, é uma grande perda”.

(extraído do site Globo.com, nesta data)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Trödelmarkt ou Mercado das Pulgas

Trödelmarkt ou Mercado das Pulgas: antiguidades e artesanato






o Tradicional Mercado das Pulgas em Berlim

Berlim é cheia de mercados, de pulgas, de comidas, de antiguidades, enfim, de tudo o que se possa imaginar.O Trödelmarkt é um deles, e pode ser visitado sempre aos finais de semana.
O TrödelMarkt é organizado em vários stands, expondo bordados tradicionais, tanto roupas quanto coisas para casa, como colchas e toalhas. Aqui também muitas mulheres se dedicam as belas artes e aos trabalhos manuais.
Além de bordados e objetos para a casa, tambem se pode encontrar no mercado tapetes, casacos, móveis, lustres e luminárias, livros, medalhas e relíquias de guerra e da antiga alemanha oriental.














 

domingo, 2 de março de 2008

Arte e Design

Design do ponto de vista Africano



"One cannot live without the things that are so nice".
Proverb of the Guro, Ivory Coast.



O design é uma das profissões em alta no momento. Em português seria bem traduzido por "desenho". Trata-se de uma função de criação e aperfeiçoamento de técnicas.
O "designer" é um tipo de artista, que encontra inspiração para exercer sua criatividade, sem descuidar do foco do trabalho, que em geral se destina ao mercado consumidor. O "design" esta ligado a sofisticação, e vai ver é por isso mesmo que no Brasil empregamos a palavra em inglês mesmo, que fica mais "chic".
Sujeito pós-moderno, o designer está ligado na efemeridade das tendências fashion que se renovam e reatualizam com pressa. Existe para ser consumido mesmo.
Eu me pergunto sobre a relação entre Arte e Design.
Não resta dúvida de que o Designer é considerado um artista no mundo de hoje, nas sociedades de capitalismo avançado. Um móvel de design sai caro, uma assinatura vale dinheiro, muito dinheiro. Seria a atualização do artista, que cansado da arte pela arte se volta para o mercado consumidor.
Diria Bourdieu que a existência do artista pressupõe que exista um campo das artes, no qual ele deverá se inserir, para ser conhecido e reconhecido, na dinâmica interna a esse campo específico.
Mas e nas chamadas sociedades primitivas?
O design estava presente e ainda assim permaneceria anônimo o criador, autor?
Ou seria apenas função da nossa falta de reconhecimento do talento individual nas sociedades primitivas?
Novos questionamentos vão se somando a essas linhas mal traçadas, gerando novas reflexões...
de todo jeito, o design também "é bom pra pensar", como diria Levi-Strauss.


Referencias

Bourdieu, Pierre. A Economia das Trocas Simbolicas. Sao Paulo: Edusp.

Levi-Strauss, Claude. "A Eficacia Simbolica" in: Antropologia Estrutural. Petropolis: Vozes.

Price, Sally. Arte Primitiva em Centros Civilizados. Sao Paulo: