Diversidade Cultural. Cidadania. Cultura Popular. Semiótica e Interpretação.
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Museu da Arte Popular de NY

Em visita ao Museu da Arte Popular de Nova Iorque me deparei com uma colcha de retalhos num modelo muito parecido com aquelas que são feitas no Brasil, pelas artesãs das comunidades com quem trabalhei em Brasília.

De modo semelhante ao trabalho das artesãs brasileiras, a colcha que estava exposta no museu também continha uma narrativa sobre a vida do artesão que a confeccionou. Composta em patchwork, a colcha fala do universo do artesão em cada detalhe, como por exemplo nas plantas cultivadas, espécies locais, os animais e o modo de trabalhar a terra.  Não havia questionamento sobre a condição de arte do objeto.


Observe na foto:


e compare com a brasileira:



O bordado de Brasília aborda temas semelhantes, mas é feito num estilo próprio, sem as molduras do patchwork ou o formato Quilt das colchas de herança cultural inglesa. As cenas elaboradas para a narrativa são separadas pelos caminhos da própria estrada, que é a estrada da vida.

A imagem da estrada é sempre recorrente nos bordados de Brasília, devido ao próprio fato de se tratar de uma cidade que abriga migrantes, oriundos de diversas regiões do Brasil. O elemento de desterritorializacnao e mudança os une. O trabalho manual contribui no processo de reinvenção de si mesmo na adaptação a nova realidade e ao novo contexto social. A narrativa é a própria elaboração subjetiva de uma história pessoal, que se repete, com diferente e variada riqueza de detalhes, nas Marias, Terezas, Irenes, Ivonetes, Jovencas, e tantas mulheres de coragem.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Arte intertextual ou intersemiótica

Intertextualidade Semiótica




Esse quadro me fez pensar sobre as possiveis leituras de obras de arte e tambem sobre a intertextualidade presente naquilo que produzimos.

Trata-se da obra de um pintor indígena, e se encontra no museu antropológico de Berlim.

As referencias que ele suscita, por sua vez, sao totalmente globais e amplamente reconhecidas no campo das artes consagradas.

O autor brinca com quadros famosos e inclui a todos numa sala de jantar indigena, onde sao visitados por turistas.

Impossivel deixar de notar a quantidade de souvenirs e como o consumo das culturas passa pelo consumo dos objetos de viagem.

sexta-feira, 28 de março de 2008

O Fim da Arte nas Sociedades Complexas




Em todos os momentos ao longo de sua história, o homem produz arte, seja como meio de expressão, seja como uma tentativa de dar sentido ao mundo. Ainda que seja apenas com o objetivo de lidar com conflitos pessoais, o homem costuma encontrar na arte uma forma de experiência, de vivenciar o cotidiano.
Podemos nos perguntar se, à medida em que avança o capitalismo e surgem tecnologias cada vez mais sofisticadas para a solução dos problemas do cotidiano, estaríamos vivendo um momento histórico em que todas as formas de representação já se encontrariam esgotadas e simplesmente já não há mais função a ser desempenhada pela arte? Estaríamos vivenciando uma mudança tão profunda nas relações econômicas e sociais que disso resultaria ausência de espaço destinado à arte?
O lugar da arte nas sociedades complexas de capitalismo tardio é um tema que merece reflexão, pois há quem considere mesmo a hipótese de que tenha chegado o momento do fim da Arte.
Partindo de uma definição conceitual de arte e de sua relação com a sociedade podemos compreender melhor a questão. Conforme costumam afirmar os antropólogos, tal articulação seria mais facilmente observável em sociedades primitivas. Os povos ditos primitivos, aqueles sem escrita e cuja história não está registrada em livros, possuem também a sua arte. Seus desenhos, pinturas, esculturas, estão geralmente ligados a aspectos de sua vida social, tais como a religião, a magia, a política ou a guerra. Os objetos são produzidos por um indivíduo a fim de que sejam empregados em algum dos rituais da vida prática.
O fato de que os objetos de arte primitiva possam ser usados para finalidades específicas não significa que sejam feitos com menor cuidado, esmero artístico e criatividade individual. A particularidade da arte primitiva residiria na sua ligação mais imediata com o universo cultural em que foi produzida. A obra de arte seria criada empregando os materiais disponíveis. Possuiria um tema representativo para o grupo social a que diz respeito e seria ainda imbuída de um conteúdo de significação cultural, capaz de expressar uma mensagem que diga respeito ao grupo como um todo.
O significado da arte primitiva só pode ser compreendido se for conhecido um pouco do universo cultural do grupo social em que ela foi produzida. É preciso compartilhar, ainda que marginalmente, dos seus significados culturais. A relação de representação entre a obra e os significados culturais que ela incorpora será assim uma relação mais direta, e mais rapidamente apreendida.
No caso das sociedades complexas, constituída por muitos sub-grupos sociais e uma maior diversidade de conteúdos culturais, complica-se o resgate das funções da arte conforme foram atribuídas à arte primitiva, e dos conteúdos culturais que nos permitiriam contextualizar seu significado.
Assim como nas sociedades primitivas, também nas sociedades complexas a compreensão da arte depende do conhecimento do contexto cultural em que foi produzida a obra. Esse processo aparentemente banal de resgate do conteúdo cultural para a atribuição de sentido ao objeto artístico é o que mascara e confunde a apreensão da arte nos dias de hoje. Já não somos capazes de compartilhar de todos os valores e significações culturais que estão presentes em nossa complexa e diversificada sociedade. Surpreendendo-nos com nossa própria incapacidade de extrair sentido da arte produzida nessa sociedade, julgamos que ela simplesmente perdeu o sentido, ou pior ainda, que jamais teve algum significado. Ficamos incomunicáveis diante da arte produzida em nossa sociedade. Diante disso, surge a hipótese de que talvez seja mesmo o fim da arte.
É preciso levar em conta que com a complexificação da sociedade, as formas dela se representar através da arte foram se sofisticando, numa relação cada vez mais mediada e indireta com a vida social. Podemos dizer que a arte, assim como a sociedade que a produz, está em constante transformação. Ela é viva e passa pelo processo de ser recriada ou reinventada, sempre buscando formas mais elaboradas de expressão. É provável que a arte jamais volte a ser como foi no passado, e o “fim da arte” signifique apenas que no futuro ela não será como a vemos hoje.

domingo, 2 de março de 2008

Arte e Design

Design do ponto de vista Africano



"One cannot live without the things that are so nice".
Proverb of the Guro, Ivory Coast.



O design é uma das profissões em alta no momento. Em português seria bem traduzido por "desenho". Trata-se de uma função de criação e aperfeiçoamento de técnicas.
O "designer" é um tipo de artista, que encontra inspiração para exercer sua criatividade, sem descuidar do foco do trabalho, que em geral se destina ao mercado consumidor. O "design" esta ligado a sofisticação, e vai ver é por isso mesmo que no Brasil empregamos a palavra em inglês mesmo, que fica mais "chic".
Sujeito pós-moderno, o designer está ligado na efemeridade das tendências fashion que se renovam e reatualizam com pressa. Existe para ser consumido mesmo.
Eu me pergunto sobre a relação entre Arte e Design.
Não resta dúvida de que o Designer é considerado um artista no mundo de hoje, nas sociedades de capitalismo avançado. Um móvel de design sai caro, uma assinatura vale dinheiro, muito dinheiro. Seria a atualização do artista, que cansado da arte pela arte se volta para o mercado consumidor.
Diria Bourdieu que a existência do artista pressupõe que exista um campo das artes, no qual ele deverá se inserir, para ser conhecido e reconhecido, na dinâmica interna a esse campo específico.
Mas e nas chamadas sociedades primitivas?
O design estava presente e ainda assim permaneceria anônimo o criador, autor?
Ou seria apenas função da nossa falta de reconhecimento do talento individual nas sociedades primitivas?
Novos questionamentos vão se somando a essas linhas mal traçadas, gerando novas reflexões...
de todo jeito, o design também "é bom pra pensar", como diria Levi-Strauss.


Referencias

Bourdieu, Pierre. A Economia das Trocas Simbolicas. Sao Paulo: Edusp.

Levi-Strauss, Claude. "A Eficacia Simbolica" in: Antropologia Estrutural. Petropolis: Vozes.

Price, Sally. Arte Primitiva em Centros Civilizados. Sao Paulo: