Diversidade Cultural. Cidadania. Cultura Popular. Semiótica e Interpretação.

sexta-feira, 28 de março de 2008

O Fim da Arte nas Sociedades Complexas




Em todos os momentos ao longo de sua história, o homem produz arte, seja como meio de expressão, seja como uma tentativa de dar sentido ao mundo. Ainda que seja apenas com o objetivo de lidar com conflitos pessoais, o homem costuma encontrar na arte uma forma de experiência, de vivenciar o cotidiano.
Podemos nos perguntar se, à medida em que avança o capitalismo e surgem tecnologias cada vez mais sofisticadas para a solução dos problemas do cotidiano, estaríamos vivendo um momento histórico em que todas as formas de representação já se encontrariam esgotadas e simplesmente já não há mais função a ser desempenhada pela arte? Estaríamos vivenciando uma mudança tão profunda nas relações econômicas e sociais que disso resultaria ausência de espaço destinado à arte?
O lugar da arte nas sociedades complexas de capitalismo tardio é um tema que merece reflexão, pois há quem considere mesmo a hipótese de que tenha chegado o momento do fim da Arte.
Partindo de uma definição conceitual de arte e de sua relação com a sociedade podemos compreender melhor a questão. Conforme costumam afirmar os antropólogos, tal articulação seria mais facilmente observável em sociedades primitivas. Os povos ditos primitivos, aqueles sem escrita e cuja história não está registrada em livros, possuem também a sua arte. Seus desenhos, pinturas, esculturas, estão geralmente ligados a aspectos de sua vida social, tais como a religião, a magia, a política ou a guerra. Os objetos são produzidos por um indivíduo a fim de que sejam empregados em algum dos rituais da vida prática.
O fato de que os objetos de arte primitiva possam ser usados para finalidades específicas não significa que sejam feitos com menor cuidado, esmero artístico e criatividade individual. A particularidade da arte primitiva residiria na sua ligação mais imediata com o universo cultural em que foi produzida. A obra de arte seria criada empregando os materiais disponíveis. Possuiria um tema representativo para o grupo social a que diz respeito e seria ainda imbuída de um conteúdo de significação cultural, capaz de expressar uma mensagem que diga respeito ao grupo como um todo.
O significado da arte primitiva só pode ser compreendido se for conhecido um pouco do universo cultural do grupo social em que ela foi produzida. É preciso compartilhar, ainda que marginalmente, dos seus significados culturais. A relação de representação entre a obra e os significados culturais que ela incorpora será assim uma relação mais direta, e mais rapidamente apreendida.
No caso das sociedades complexas, constituída por muitos sub-grupos sociais e uma maior diversidade de conteúdos culturais, complica-se o resgate das funções da arte conforme foram atribuídas à arte primitiva, e dos conteúdos culturais que nos permitiriam contextualizar seu significado.
Assim como nas sociedades primitivas, também nas sociedades complexas a compreensão da arte depende do conhecimento do contexto cultural em que foi produzida a obra. Esse processo aparentemente banal de resgate do conteúdo cultural para a atribuição de sentido ao objeto artístico é o que mascara e confunde a apreensão da arte nos dias de hoje. Já não somos capazes de compartilhar de todos os valores e significações culturais que estão presentes em nossa complexa e diversificada sociedade. Surpreendendo-nos com nossa própria incapacidade de extrair sentido da arte produzida nessa sociedade, julgamos que ela simplesmente perdeu o sentido, ou pior ainda, que jamais teve algum significado. Ficamos incomunicáveis diante da arte produzida em nossa sociedade. Diante disso, surge a hipótese de que talvez seja mesmo o fim da arte.
É preciso levar em conta que com a complexificação da sociedade, as formas dela se representar através da arte foram se sofisticando, numa relação cada vez mais mediada e indireta com a vida social. Podemos dizer que a arte, assim como a sociedade que a produz, está em constante transformação. Ela é viva e passa pelo processo de ser recriada ou reinventada, sempre buscando formas mais elaboradas de expressão. É provável que a arte jamais volte a ser como foi no passado, e o “fim da arte” signifique apenas que no futuro ela não será como a vemos hoje.

domingo, 2 de março de 2008

Arte e Design

Design do ponto de vista Africano



"One cannot live without the things that are so nice".
Proverb of the Guro, Ivory Coast.



O design é uma das profissões em alta no momento. Em português seria bem traduzido por "desenho". Trata-se de uma função de criação e aperfeiçoamento de técnicas.
O "designer" é um tipo de artista, que encontra inspiração para exercer sua criatividade, sem descuidar do foco do trabalho, que em geral se destina ao mercado consumidor. O "design" esta ligado a sofisticação, e vai ver é por isso mesmo que no Brasil empregamos a palavra em inglês mesmo, que fica mais "chic".
Sujeito pós-moderno, o designer está ligado na efemeridade das tendências fashion que se renovam e reatualizam com pressa. Existe para ser consumido mesmo.
Eu me pergunto sobre a relação entre Arte e Design.
Não resta dúvida de que o Designer é considerado um artista no mundo de hoje, nas sociedades de capitalismo avançado. Um móvel de design sai caro, uma assinatura vale dinheiro, muito dinheiro. Seria a atualização do artista, que cansado da arte pela arte se volta para o mercado consumidor.
Diria Bourdieu que a existência do artista pressupõe que exista um campo das artes, no qual ele deverá se inserir, para ser conhecido e reconhecido, na dinâmica interna a esse campo específico.
Mas e nas chamadas sociedades primitivas?
O design estava presente e ainda assim permaneceria anônimo o criador, autor?
Ou seria apenas função da nossa falta de reconhecimento do talento individual nas sociedades primitivas?
Novos questionamentos vão se somando a essas linhas mal traçadas, gerando novas reflexões...
de todo jeito, o design também "é bom pra pensar", como diria Levi-Strauss.


Referencias

Bourdieu, Pierre. A Economia das Trocas Simbolicas. Sao Paulo: Edusp.

Levi-Strauss, Claude. "A Eficacia Simbolica" in: Antropologia Estrutural. Petropolis: Vozes.

Price, Sally. Arte Primitiva em Centros Civilizados. Sao Paulo: